Se você está planejando uma obra, reformando um comércio ou atualizando a instalação da empresa, uma dúvida sempre aparece: quanto custa montar um painel elétrico do jeito certo, sem estourar o orçamento e sem abrir mão da segurança? A resposta depende de alguns fatores bem objetivos — potência instalada, nível de proteção, componentes, mão de obra e documentação técnica. A boa notícia é que dá para prever uma faixa de custo com bastante precisão seguindo um passo a passo simples. Vamos destrinchar tudo, de forma clara e direta.

O que é, afinal, um painel elétrico
O painel elétrico (ou quadro de distribuição) é o coração da instalação. É nele que ficam o disjuntor geral, os disjuntores dos circuitos, os dispositivos de proteção (DR e DPS), barramentos, trilho DIN, bornes, contator, relé térmico, inversor, CLP e por aí vai, conforme a complexidade. Em residências, costuma ser um QDC de embutir ou sobrepor; em comércios e indústrias, normalmente é um gabinete metálico com grau de proteção (IP) adequado e espaço para expansão.
Fatores que definem o preço
1) Escopo e potência
- Residencial de pequeno porte (6 a 12 circuitos, 127/220 V monofásico ou bifásico).
- Residencial maior/comercial leve (18 a 36 circuitos, DR por setores, DPS, reserva).
- Comercial/industrial com motores (trifásico, 220/380/440 V, contatores, relés térmicos, inversores).
- Painéis especiais (automação, CLP, soft-starter, medição setorizada, redundâncias).
Quanto mais cargas, partidas de motor e automação, maior o custo.
2) Componentes e qualidade
- Disjuntores termomagnéticos (curvas B/C/D conforme aplicação).
- DR e DPS (obrigatórios para segurança e proteção de equipamentos).
- Barramentos de cobre, trilho DIN, bornes, etiquetas e canaletas.
- Gabinete (plástico ou metálico) com grau de proteção IP compatível com o ambiente.
- Acessórios: transformador de comando, fonte 24 Vcc, ventilação, termostatos, prensa-cabos.
3) Projeto, ART e testes
- Projeto elétrico com diagrama unifilar, lista de materiais e memória de cálculo (conforme NBR 5410/NBR 14039, quando aplicável).
- ART/RT de profissional habilitado, quando exigida.
- Ensaios e comissionamento (continuidade de terra, isolação, funcional, etiquetagem).
4) Mão de obra e logística
- Montagem (furação, fixação, crimpagem, identificação).
- Passagem e organização de chicotes.
- Deslocamento, prazo e garantia.
Faixas de preço por cenário (valores de referência em R$)
Os números abaixo ajudam a dimensionar o tamanho do investimento. Servem como baliza para orçar e negociar. Variação natural por região, marca e escopo.
Residencial simples – 6 a 12 disjuntores
- Materiais: R$ 450 a R$ 900
(quadro, disjuntores, DR 30 mA para tomadas, DPS classe II, barramentos, acessórios) - Mão de obra: R$ 400 a R$ 900
- Documentação/testes: R$ 150 a R$ 400
Total típico: R$ 1.000 a R$ 2.100
Residencial/Comercial leve – 18 a 36 disjuntores
- Materiais: R$ 1.200 a R$ 3.200
- Mão de obra: R$ 800 a R$ 2.000
- Projeto/ART/testes: R$ 300 a R$ 800
Total típico: R$ 2.300 a R$ 6.000
Painel para motor/poço/bomba (trifásico, 5–15 cv)
- Materiais: R$ 3.000 a R$ 9.000
(contatores, relé térmico, chave de partida/soft-starter ou inversor, proteções, gabinete metálico) - Mão de obra: R$ 1.200 a R$ 2.800
- Projeto/ART/testes: R$ 600 a R$ 1.500
Total típico: R$ 4.800 a R$ 13.300
Painel industrial com inversor/CLP/partidas múltiplas
- Materiais: R$ 10.000 a R$ 80.000+
- Mão de obra: R$ 4.000 a R$ 20.000
- Projeto/ART/engenharia/comissionamento: R$ 3.000 a R$ 15.000
Total típico: R$ 17.000 a R$ 115.000+
Regras práticas para estimar sem susto
Você pode usar duas regrinhas para “cheirar” orçamento:
A) Percentuais do custo total
- 55% a 65%: materiais
- 25% a 35%: mão de obra
- 10% a 15%: engenharia/documentação/testes
Se um orçamento vier com materiais muito baratos e quase nada de engenharia, desconfie. Pode faltar item crítico.
B) Custo por kW de carga atendida
- Residencial: R$ 150 a R$ 250 por kW
- Comercial leve: R$ 250 a R$ 450 por kW
- Industrial/automação: R$ 500 a R$ 1.200 por kW
Não é matemática perfeita, mas ajuda a comparar propostas.
Exemplo rápido de cálculo
Imagine uma residência com 12 kW de carga prevista, 20 circuitos, DR setorizado e DPS:
- Custo por kW (R$ 180): 12 × 180 = R$ 2.160
- Checagem por componentes: materiais ~ R$ 1.600, mão de obra ~ R$ 900, doc/testes ~ R$ 300 ⇒ R$ 2.800
Os dois métodos dão ordem de grandeza parecida. Orçamentos entre R$ 2.200 e R$ 3.200 fazem sentido para esse caso.
Itens que mais “puxam” o preço
- DR e DPS de marcas premium e correntes maiores.
- Inversores de frequência/soft-starters, principalmente acima de 7,5 cv.
- Gabinetes metálicos IP54+ com pintura eletrostática e placas internas.
- Barramentos de cobre estanhado e conectores de boa procedência.
- Sinalização (pilotos, botoeiras, chave seletora), bornes com separadores, etiquetas térmicas.
Onde economizar sem perder segurança
- Especificar espaço de expansão (30% de disjuntores livres). Evita trocar tudo na próxima ampliação.
- Padronizar curvas e calibres quando possível, reduzindo variedade de sobressalentes.
- Comprar disjuntores e acessórios em kits/cotas maiores para desconto.
- Preferir montagem limpa com canaletas e terminais crimpados: economiza tempo de manutenção.
- Escolher marcas confiáveis e com assistência local, não necessariamente as mais caras.
Onde não cortar de jeito nenhum
- Remover DR ou DPS “para baratear”. Isso sai caro depois.
- Usar gabinete sem o IP correto em área úmida/poeira.
- Aterramento improvisado ou inexistente.
- Cabos sem identificação, sem terminais ou emendas malfeitas.
- Falta de diagrama unifilar e etiquetas. Sem isso, manutenção vira loteria.
Checklist para pedir orçamento profissional
Informações que o fornecedor precisa
- Tensão do sistema (127/220/380/440 V) e regime (mono/bi/trifásico).
- Potência instalada e lista de cargas com correntes aproximadas.
- Número de circuitos finais e reserva de expansão.
- Ambiente e nível de proteção desejado (IP, ventilação, filtro).
- Itens de automação (CLP, remotas, IHM), se houver.
- Necessidade de ART, laudos e comissionamento.
O que exigir na proposta
- Lista de materiais por marca/modelo.
- Diagrama unifilar e layout do painel.
- Prazos, garantia e escopo de testes.
- Condições de entrega (montado e testado, FAT/SAT, treinamento).
- Memorial de cálculo quando aplicável.
Custos “escondidos” que pegam muita gente
- Interligações e cabos até o painel (não estão no preço do gabinete).
- Disjuntores/contatores sobressalentes e estoque inicial.
- Corte de alvenaria para embutir QDC ou base/estrado para gabinete.
- Transporte, içamento e instalação física.
- Medições com megômetro e eventual termografia de aceite.
- Ajustes de seletividade e coordenação de curto-circuito.
Prazo de montagem e logística
- QDC residencial: 1 a 3 dias úteis após materiais disponíveis.
- Comercial médio: 5 a 10 dias úteis.
- Industrial com automação: 2 a 6 semanas (engenharia, compras, montagem e testes).
Prazos dependem muito de disponibilidade de inversores, contactores especiais e gabinetes sob medida.
Erros comuns que encarecem depois
- Subdimensionar corrente do disjuntor geral.
- Não prever curva correta de disjuntores para partidas de motor.
- Ignorar queda de tensão e bitola mínima, gerando aquecimento.
- Colocar tudo “apertado”, sem respiro térmico.
- Falta de barramento de terra e equipotencialização.
- Misturar marcas incompatíveis de trilho/bornes/acessórios.
Sinais de orçamento bom vs. orçamento ruim
Bom
- Descritivo completo, marcas conhecidas, referências claras.
- Diagrama unifilar e lista de terminais/bornes.
- Inclui DR e DPS, aterramento, etiquetagem e testes.
- Prazos realistas e garantia de montagem.
Ruim
- “Pacote fechado” sem detalhamento.
- Preço muito baixo, retirada de proteções essenciais.
- Ausência de documentação técnica.
- Promessas vagas sobre prazos e desempenho.
Perguntas rápidas (FAQ)
Dá para montar aos poucos?
Dá, mas já deixe o gabinete com tamanho e barramentos para expansão. Assim você não refaz tudo depois.
Precisa sempre de ART?
Em muitos cenários comerciais/industriais e em serviços para terceiros, sim. Em residências, depende da exigência local e do escopo. Consulte um profissional habilitado.
É obrigatório usar DR e DPS?
Para segurança de pessoas e proteção de equipamentos, sim. Além de reduzir risco de choque e surtos, valorizam o imóvel e diminuem dores de cabeça.
Qual o melhor: disjuntor curva B, C ou D?
Depende da carga. Iluminação e tomadas costumam usar B/C. Motores e cargas com pico de partida podem exigir C/D. Avalie seletividade e corrente de partida.
Montar um painel elétrico envolve três blocos de custo: componentes de qualidade, mão de obra qualificada e documentação/testes. Com as faixas de preço e as regrinhas de estimativa que você viu aqui, fica bem mais fácil saber quando um orçamento está coerente e quando está arriscado. Não economize nas proteções centrais (DR e DPS) e escolha um gabinete com espaço para crescer. No fim, o que parece “caro” geralmente sai mais barato do que refazer um painel mal dimensionado.